COMENTÁRIO: O que é inteligência ?

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[ Ouça o podcast desta primeira parte ]

Quando perguntamos “o que é inteligência”, acabamos nos deparando com respostas que, na verdade, descrevem como se comporta a inteligência humana. Piaget especializa-se nas fases do desenvolvimento humano e seus sinais de inteligência. Locke aborda as ideias simples e complexas, alimentadas pelo ambiente, numa mente neonatal, inicialmente vazia. Chomsky fala de uma nossa capacidade inata, precoce, de aprender a linguagem humana. São apenas tentativas de compreender ou explicar um fenômeno indefinível.

A física quântica nos trouxe também este paradoxo. É célebre a frase do físico Richard Feynman: “Acho que posso afirmar com segurança que ninguém entende a mecânica quântica”. Poderíamos facilmente dizer o mesmo sobre a inteligência.

Mas voltemos a Piaget. Ele troca a pergunta original por: “Como se constrói uma conduta inteligente em humanos?”.

Partindo do princípio de que a inteligência é uma forma de adaptação, ele identifica três mecanismos consecutivos e interativos pelos quais ela ocorre:

  1. Assimilação: a interpretação da experiência nova através de esquemas já existentes. O exemplo é o da criança chamando de “cachorro” a todo quadrúpede.
  2. Acomodação: a modificação dos esquemas diante do que não se ajusta a eles. Exemplo: quando um quadrúpede de tromba recebe a classificação de “elefante”, pela criança.
  3. Equilibração: a coordenação dessas transformações em organizações mais estáveis. Ex.: -Tamanduá não é elefante!

É claro que esses mecanismos dependem das linguagens e seu aprendizado, mas deveriam depender exclusivamente delas? Podemos pensar, sem fugir muito do assunto em pauta, no aprendizado das máquinas jogadoras de xadrez, como a Stockfish V19, lançado em setembro de 2026. Não há linguagem, ou a linguagem é o próprio jogo?

Então, em resposta à pergunta original, ouso imaginar que uma definição de inteligência não pode ser feita sem uma criação superior, uma metalinguagem, ou uma lógica de mais alto nível, que liberte este assunto dos domínios da filosofia e da psicologia.

Susana Herculano-Houzel

Obtivemos recentemente uma definição operacional de inteligência da neurocientista. Ela vai nos render uma boa discussão, principalmente no item “flexibilidade de você agir em prol daqueles estados futuros que você deseja”.

Mas Piaget propôs que a inteligência humana evolui em estágios:

  • Sensório-motor (0–2 anos): conhecimento por ações e percepções.
  • Pré-operatório (2–7 anos): surgimento da linguagem e do pensamento simbólico.
  • Operatório concreto (7–11 anos): raciocínio lógico aplicado a situações concretas.
  • Operatório formal (11 anos em diante): pensamento abstrato, hipotético e científico.

A criança de 0-2 anos se encaixaria na definição operacional da Dra. Susana ? Vejamos:

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