Amanda

Este meu texto recebeu críticas do ChatGPT em 25/06/2026. Veja o chat aqui.

A primeira visão dela foi um choque. Eu tinha saído do Metrô Maracanã. Ela estava lá, ao lado da pipoca, de manhã. Eu ia apresentar minha palestra sobre a história da Inteligência Artificial para a equipe da Coruja, uma revista online.

O sol ainda era brando, mas já anunciava o calor. Ela vestia andrajos, tudo na cor vinho. Achei curioso aquilo. Uma saia curta, que não era saia, mas um trapo. Um tomara-que-caia, que era um pano de cor igual. Vinho. Como nas vestes de rainhas antigas, ou arrancado de um antigo sofá. A pele branca, coberta de feridas que lembravam sarna. As pernas finas, o andar trôpego. Os ossos do peito evidentes, típicos de um cão sarnento e faminto. No supercílio esquerdo, um ferimento, causado provavelmente por um soco, o sangue muito vermelho pisado, mas ainda muito vermelho. Um ferimento recente.

Ela falou comigo, um aterrorizado passante. – Me dá uma moedinha, ela disse. Qualquer coisa. A voz meio embargada, dopada. Continuei andando, mas durante a palestra aquela mulher insistia em voltar à minha memória. Eu só consegui esboçar um -Sinto muito. Desci a passarela e fui para a sala de aula. Dei a palestra mas cheguei a comentar à mesa de participantes, após a palestra, como tinha encontrado este ser humano, essa “nóia”. Isso foi no 23 de novembro de 2023. Imaginei quanto tempo ela duraria nas ruas, daquele jeito lamentável.

Na quarta-feira de 23 de junho de 2026, três anos depois, eu a vi. Eu estava no VLT, vindo da Rodoviária. Era manhã e fazia sol. Mesmo estilo de andrajos, o bustier improvisado quase caindo. Mas ela sim, tinha um estilo, afinal. A composição ia parar na estação Harmonia. Eu a vi com o canto do olho ainda na rua, apressada em direção à estação. Estava frio, muito mais frio no vagão. Ela entrou com seu estilo trash mini. Eu estava com meu amigo João. Ela veio pedindo a todos umas moedinhas. Eu gelei. As mesmas feridas na pele. Por três anos ela tinha assombrado minha noites. E agora, eu segurava o poste gelado e ela, ao meu lado, usava sua voz, desta vez clara e maravilhosa, como se houvesse partido de uma locutora de rádio: – Bom dia, pessoal, eu sou Amanda. Vocês podem me dar uma moedinha, qualquer coisa ? Ela não fedia como os mendigos da rua. Emitia calor, que eu senti quando ela se encostou no poste de segurança ao qual eu me agarrava. Dava para perceber sua fala correta, sua pronúncia carioca perfeita. Essa mulher tinha tido posto e instrução. Amanda estava ali, como um fantasma, ferida, três anos depois. Mas com uma energia na voz que denunciava um passado brilhante. Amanda. A minha musa do lixo. Eu disfarcei. Pedi desculpas. Literalmente fechei minha mente para aquela aparição. E falei com João, que a olhava com tristeza.

Exatamente o mesmo corpo que vi antes. Mas uma voz capaz de ensinar, de arguir, de representar a si mesma, apesar das feridas.

A verdade é que gelei. Amanda estava lá, três anos depois. A lembrar da violência de nosso sistema. A lembrar que mulher alguma merecia aquele destino. Muito menos ela.

Tive vontade de gritar: – Salvem Amanda, pelo amor de Deus. Levem-na para casa, cuidem dela. Aguentem sua loucura, seja lá qual for ! Mas de minha garganta não saía nada. Se Amanda tivesse uma faca e quisesse me matar, este seria o momento. Amanda apenas me lembrou que é possível ser louca, viciada nas ruas. É possível passar fome por três anos seguidos, arrostar o frio quase nua. E mesmo assim ter uma voz capaz de escravizar pessoas chamadas de alto nível, fixar-se em suas mentes, mudar futuros como sua aparição mudou. Então ansiei pela mudança. Uma mudança na qual Amanda seria a fiscal do povo da rua, na qual ela teria o poder, do alto de sua experiência pessoal.

Se Amanda desaparecer amanhã, talvez ninguém perceba. Mas eu perceberei. Porque, desde aquela manhã, todas as vezes que atravesso uma estação, procuro por ela. Não para lhe dar uma moeda. Para descobrir se ainda chegamos a tempo de salvar alguém antes que seja tarde demais.

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