Paulo C. Santos1
Apesar dos esforços pioneiros da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ – em ações afirmativas, há uma área do conhecimento na qual essas ações podem criar problemas duradouros para os alunos cotistas afrontando, inclusive o dispositivo XII da Declaração Universal dos Direitos Humanos:
“Artigo XII
Ninguém será sujeito à interferência em sua vida privada, em sua família, em seu lar ou em sua correspondência, nem ataque a sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.”
Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada pelo Brasil em 10 de dezembro de 1948.
Eu frequento o curso de Letras Português-Inglês da UERJ de 2022.1. Meu objetivo é trazer para meus alunos do Pré-Vestibular Social Adelaide Barbosa – onde sou voluntário – uma perspectiva do que eles enfrentarão no concurso vestibular e no curso universitário propriamente dito. Presumia-se, no passado que, uma vez aprovados no vestibular, alunos e alunas estariam habilitados a frequentar o curso. Não era verdade. Eles precisariam ter uma fluência em inglês.
Se lembrarmos das regras publicadas no Edital, há vagas exclusivas para afrodescendentes, indígenas e pessoas com deficiência – as cotas. Mas há outras políticas afirmativas durante a vida acadêmica: o aluno cotista pode, por exemplo, escolher um auxílio-refeição depositado em dinheiro em sua conta bancária mas perde o direito a um bandejão (restaurante universitário) a US$ 0,59. A maioria aceita o depósito, mas eles ficam assim impedidos de fazer refeições com colegas não cotistas – o custo da refeição sem subsídio é US$ 2,732. Enquanto os não cotistas almoçam e jantam, ao menos formalmente, em perfeita harmonia no restaurante, os cotistas ficam nas lanchonetes dos andares, com seus cafés e salgados mais caros.
Nos cursos de línguas estrangeiras da UERJ há uma regra, que não estava escrita em lugar algum3: Os alunos egressos do vestibular devem ser fluentes na língua escolhida e apresentar nela um nível, no mínimo, intermediário. É uma regra tácita, que as classes mais ricas fazem questão de cumprir com seus filhos – matriculados em cursos caros. Quando o aluno chega ao curso, depara-se com tarefas que o obrigam a apresentar, logo cedo, textos de 5 a 15 minutos na língua escolhida. Um aluno que não apresente fluência em inglês, por exemplo, pode sentir-se desprezado. Tenho visto pessoas alegres e comunicativas se tornarem taciturnas depois dessas experiências – uma possível indicação de dano psicológico.
Apesar da existência de monitores (raros no primeiro período), alguns alunos, cotistas ou não, podem achar impossível recuperar, em um semestre, uma vida de escola com baixo nível de ensino de línguas. Os professores são claros: – Não estamos aqui para ensinar línguas. Estamos aqui para formar outros professores. Creio que os alunos mais experientes deveriam orientar os recém-chegados e ajudá-los. Isto reforçaria o espírito do que estamos fazendo: justamente aprendendo a sermos professores.
—
1Aluno do curso de Letras / Inglês Escrito em 16/08/2022. Revisto em janeiro de 2026.
2Valores aproximados à época, convertidos para dólares apenas para comparação.
3Segundo informações de alunos, a partir de 2025 essa exigência passou a constar no edital. Já o edital do vestibular de 2022 não faz qualquer menção ao assunto.

Sê o primeiro