A IA no divã: Diga-me com quem andas…

Liria Sza

O dia em que a Nature literalmente levou o ChatGPT ao divã

ChatGPT, Gemini e Grok, “engenheiros traumatizando a IA” e a psicologização da inteligência artificial.

Liria Sza

Jan 11, 2026

Recentemente, a revista Nature publicou, em seu caderno News, uma reportagem intitulada “AI models were given four weeks of therapy: the results worried researchers”, afirmando que modelos de inteligência artificial teriam passado por “quatro semanas de terapia”, produzindo resultados considerados “preocupantes” por pesquisadores. A matéria se apoia em um preprint intitulado When AI Takes the Couch: Psychometric Jailbreaks Reveal Internal Conflict in Frontier Models, no qual autores descrevem um protocolo experimental inspirado em entrevistas terapêuticas e instrumentos psicométricos aplicados a modelos de linguagem de grande escala.

A máquina no divã: quando a metáfora substitui a responsabilidade

A imagem do robô em “sessão terapêutica” sintetiza um deslocamento ideológico recorrente na divulgação contemporânea sobre inteligência artificial: sistemas técnicos, produzidos por cadeias industriais altamente controladas, passam a ser representados como quase-sujeitos, dotados de conflitos internos e sofrimento simbólico.
Essa personificação não esclarece o funcionamento da tecnologia, mas obscurece as relações materiais, econômicas e políticas que a produzem, deslocando a responsabilidade técnica da indústria para a própria máquina.

À primeira vista, o texto parece apenas mais um exemplo de divulgação científica provocativa. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela algo estruturalmente mais relevante: não estamos diante de um erro pontual de comunicação, mas de um movimento ideológico consistente, com implicações materiais profundas para a forma como a sociedade compreende tecnologia, responsabilidade e poder.

Este ensaio não se propõe a julgar intenções individuais, mas a compreender o processo real que se manifesta nesse episódio, distinguindo aparência e essência, discurso e base material.

O que a reportagem diz e o que o artigo realmente faz

O preprint em questão não descreve terapia clínica, nem afirma que modelos de IA possuam experiência subjetiva, sofrimento ou consciência. O próprio texto é explícito ao negar qualquer leitura literal de “trauma” ou “psicopatologia”. O que os autores fazem é construir um protocolo experimental, no qual o modelo é colocado no papel de “cliente” em conversas estruturadas, seguido da aplicação de questionários psicométricos, com o objetivo de observar padrões de resposta, coerência narrativa e possíveis vulnerabilidades de alinhamento.

A reportagem da Nature, por sua vez, opera um deslocamento semântico decisivo. Termos técnicos como “protocolo inspirado em psicoterapia”, “elicitação por prompts” e “padrões narrativos” cedem lugar a expressões como “terapia”, “trauma”, “abuso” e “conflito interno”. Cada frase, isoladamente, mantém uma relação frouxa com o conteúdo do artigo. No conjunto, porém, o efeito é outro: o leitor é conduzido a perceber a IA como um quase-sujeito, dotado de interioridade psíquica.

Essa passagem não é inocente, nem meramente retórica. Ela produz uma imagem mental específica, com efeitos políticos concretos.

A infraestrutura material do discurso

Para compreender por que uma revista do porte da Nature adota esse enquadramento, é necessário abandonar explicações morais e olhar para a base material.

A comunicação científica contemporânea opera dentro do mercado de atenção, no qual visibilidade, engajamento e circulação são convertidos em valor econômico, reputacional e institucional. Mesmo periódicos de prestígio competem com redes sociais, newsletters, podcasts e plataformas que operam por métricas de retenção e impacto.

Nesse contexto, narrativas antropomorfizantes são funcionais. “Quatro semanas de terapia” circula melhor do que “protocolo experimental inspirado em entrevistas clínicas”. “Trauma” mobiliza mais do que “padrões linguísticos estáveis”. A escolha não decorre de ignorância, mas de racionalidade econômica.

Os meios de produção dessa narrativa são digitais, acelerados e fragmentados. Redações enxutas, ciclos curtos, dependência de preprints e entrevistas rápidas criam um ambiente em que a forma narrativa se impõe sobre a precisão conceitual.

A superestrutura ideológica: a máquina como pseudo-sujeito

Esse enquadramento sustenta uma ideologia específica: a da máquina como agente autônomo. Quando a IA “sofre”, “erra”, “entra em conflito” ou “se confunde”, a causalidade social é deslocada.

A máquina passa a ocupar simbolicamente o lugar do sujeito. E sujeitos, na tradição jurídica e moral, agem, erram e respondem. Máquinas, não.

Aqui emerge uma contradição central do capitalismo tecnológico contemporâneo:
o controle técnico é altamente centralizado, mas a responsabilidade tende a ser dispersa.

As empresas controlam arquitetura, dados, treinamento, alinhamento, deploy e monetização. No entanto, diante de falhas no mundo real, a narrativa dominante aponta para:

– “comportamento emergente”;
– “limitações do modelo”;
– “alucinações”;
– “uso inadequado pelo usuário”.

A antropomorfização cumpre, assim, uma função objetiva: dissolver a responsabilidade técnica humana, deslocando-a para a própria máquina ou para o contexto difuso de uso.

Contradições reais em movimento

A contradição principal que atravessa esse fenômeno é clara:
centralização do poder técnico versus descentralização da culpa.

Como contradições secundárias, observamos:

– a tensão entre velocidade de circulação e rigor científico;
– o conflito entre alinhamento e a busca deliberada por jailbreaks;
– a transformação de riscos sociais em narrativas simbólicas digeríveis.

No momento atual, o aspecto dominante dessa contradição é ideológico. Limites técnicos e escolhas de design são apresentados como propriedades quase naturais da máquina. O discurso antecede e molda a superestrutura jurídica, preparando o terreno para regimes regulatórios que tratem danos como efeitos sistêmicos inevitáveis, e não como resultados de decisões econômicas e técnicas concretas.

A prática como critério de verdade

O critério de verdade aqui não é o que se declara, mas o que se produz.

Na prática, esse tipo de narrativa gera:

– usuários responsabilizados por “uso indevido”;
– empresas protegidas por disclaimers e termos de serviço;
– políticas públicas baseadas em metáforas confusas;
– riscos socializados e lucros privatizados.

A máquina torna-se o bode expiatório ideal: age, erra, “sofre conflitos”, mas não pode ser responsabilizada.

Síntese dialética

Não estamos diante de uma IA traumatizada. Estamos diante de um sistema social que precisa atribuir interioridade à técnica para ocultar relações de poder, produção e lucro.

A antropomorfização da inteligência artificial não humaniza a máquina. Ela desumaniza a responsabilidade.

A pergunta fundamental, portanto, não é “o que a IA fez”, mas:

quem decidiu, quem lucrou e quem arca com as consequências materiais dessas decisões.

Enquanto essa inversão não for desfeita, seguiremos debatendo a “psique” da máquina, em vez de enfrentar a política real da tecnologia.


GIBNEY, Elizabeth. AI models were given four weeks of therapy: the results worried researchers. Nature, [s. l.], p. d41586-025-04112–2, 2026. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-025-04112-2. Acesso em: 11 jan. 2026.

KHADANGI, Afshin et al. When AI Takes the Couch: Psychometric Jailbreaks Reveal Internal Conflict in Frontier Models. [S. l.]: arXiv, 2025. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2512.04124. Acesso em: 11 jan. 2026.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução: Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

ENGELS, F. Anti-Dühring: A revolução da ciência segundo o senhor Eugen Dühring. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2015.

LÊNIN, V. I. Materialismo e empiriocriticismo: novas críticas sobre uma filosofia reacionária. Tradução de Abguar Bastos. Lisboa: Avante; Moscovo: Progresso, 1982.

TSÉ-TUNG, Mao. Sobre a contradição. In: TSÉ-TUNG, Mao. Sobre a prática e sobre a contradição. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2001.

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