{"id":1167,"date":"2025-06-07T15:31:42","date_gmt":"2025-06-07T18:31:42","guid":{"rendered":"https:\/\/treinamentolivre.com\/pc\/?p=1167"},"modified":"2025-06-07T17:04:15","modified_gmt":"2025-06-07T20:04:15","slug":"a-decadencia-de-phoenix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/treinamentolivre.com\/pc\/?p=1167","title":{"rendered":"A DECAD\u00caNCIA DE PHOENIX"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Extra\u00eddo do livro <strong>&#8220;<em>2084: Uma fic\u00e7\u00e3o baseada em fatos reais sobre o aquecimento global e o futuro da Terra<\/em>&#8220;<\/strong>, de <strong>James Lawrence Powell. <\/strong>A obra, de 2020,<strong> <\/strong>foi publicado no Brasil em 2022 pela Editora Sextante. Apresenta uma vis\u00e3o dist\u00f3pica do futuro, baseada em proje\u00e7\u00f5es cient\u00edficas sobre os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"648\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/treinamentolivre.com\/pc\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/2084A-648x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1171\" style=\"width:402px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/treinamentolivre.com\/pc\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/2084A-648x1024.jpg 648w, https:\/\/treinamentolivre.com\/pc\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/2084A-190x300.jpg 190w, https:\/\/treinamentolivre.com\/pc\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/2084A-768x1213.jpg 768w, https:\/\/treinamentolivre.com\/pc\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/2084A.jpg 889w\" sizes=\"auto, (max-width: 648px) 100vw, 648px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Nascido e criado em Phoenix, Steve Thompson \u00e9 um engenheiro hidr\u00e1ulico de 72 anos que trabalhou no Projeto do Arizona Central. Antes da Guerra Canadense-Americana, ele se mudou para Saskatchewan e se tornou cidad\u00e3o canadense.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Steve, quando sua fam\u00edlia chegou ao Arizona ?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Meus bisav\u00f3s se mudaram para Phoenix logo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, juntamente com outras fam\u00edlias de ex-militares &#8211; todos vinham em busca do sonho americano. E de modo geral o encontraram.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da segunda metade do s\u00e9culo passado e durante algum tempo neste s\u00e9culo, a demanda por moradias em Phoenix manteve a explos\u00e3o imobili\u00e1ria em crescimento acelerado. As pessoas aproveitavam a vida boa e se esqueciam de que estavam vivendo em um deserto, cujo \u00edndice anual de precipita\u00e7\u00e3o pluviom\u00e9trica era de apenas 200 mil\u00edmetros.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos moradores n\u00e3o imaginava de onde vinha a \u00e1gua que sa\u00eda de suas torneiras. Podiam ter ouvido falar de alguma com coisa chamada Projeto do Arizona Central, que trazia \u00e1gua do lago Mead, no baixo Rio Colorado, para a cidade de Phoenix. Mas onde o rio Colorado obtinha sua agua ? Nos campos de neve das encostas a oeste das montanhas Rochosas, a centenas de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Se houvesse alguma altera\u00e7\u00e3o na \u00e9poca do degelo ou na quantidade de neve que caia nas Rochosas, Phoenix se veria em s\u00e9rios apuros. Mas ningu\u00e9m se preocupava com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Na virada do s\u00e9culo, as autoridades encarregadas do planejamento para o Arizona Central achava que a popula\u00e7\u00e3o aumentaria para aproximadamente 7 milh\u00f5es de pessoas por volta de 2050.<\/p>\n\n\n\n<p>Em retrospecto, foi uma suposi\u00e7\u00e3o rid\u00edcula. Quando meus bisav\u00f3s vieram para ca, em 1950, a cidade de Phoenix propriamente fita tinha apenas cerca de 100 mil habitantes. No ano em que nasci, 2012, estava com 1,6 milh\u00e3o. Agora est\u00e1 voltando no tempo, aproximando-se dos 100 mil habitantes de novo E at\u00e9 isso pode ser muito.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a d\u00e9cada de 2020, tudo parecia estar melhorando em Phoenix. A cidade vinha ficando mais quente a cada ano, mas todos os pr\u00e9dios tinham ar-condicionado; assim, simplesmente permanec\u00edamos em recintos fechados durante o auge do ver\u00e3o. Nunca pensamos de fato a respeito do que far\u00edamos se faltasse energia e n\u00e3o pud\u00e9ssemos ligar nossos condicionadores de ar quando quis\u00e9ssemos. N\u00e3o pensamos que, se as aguas do rio Colorado baixassem em fun\u00e7\u00e3o do aquecimento global, conforme previam os cientistas do clima, haveria menos \u00e1gua para mover as turbinas das represas Hoover e Glen Canyon e, com isso, menos energia el\u00e9trica. Logo, se tiv\u00e9ssemos uma seca realmente rigorosa, tamb\u00e9m ter\u00edamos falta de energia el\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando o senhor percebeu que as coisas haviam mudado ?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que posso dizer at\u00e9 a hora, pois \u00e9 a lembran\u00e7a mais v\u00edvida de minha vida. Foi em 2027, numa manha quente de ver\u00e3o, quando minha m\u00e3e atendeu a batidas na porta e se deparou com dois homens, ambos de uniforme. Um deles tinha um revolver Smith &amp; Wesson .38 pendurado na cintura; o outro segurava uma caixa de ferramentas. Aquela pistola me causou uma grande impress\u00e3o. Os dois homens usavam distintivos do departamento de \u00e1guas da cidade. Como parte de um programa abrangente, vinham instalar uma v\u00e1lvula acionada por controle remoto que limitaria o consumo di\u00e1rio de \u00e1gua de minha fam\u00edlia a 284 litros por pessoa. Quando alcan\u00e7\u00e1ssemos esse limite, a v\u00e1lvula se fecharia e n\u00e3o receber\u00edamos mais agua at\u00e9 00h01 do dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que o departamento de \u00e1guas, os jornais e a TV j\u00e1 haviam anunciado que o racionamento estava a caminho, mas o impacto da medida s\u00f3 atingiu nossa fam\u00edlia quando aqueles dois homens apareceram \u00e0 nossa porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o racionamento di\u00e1rio de 284 litros por pessoa n\u00e3o promovesse economia suficiente, o departamento de \u00e1guas poderia reprogramar remotamente as v\u00e1lvulas para um limite menor. Qualquer um podia ver o que estava para acontecer. A penalidade para quem adulterasse as v\u00e1lvulas seria uma multa e uma quota ainda mais reduzida. Caso repetisse o delito, o dono da casa seria condenado a dois anos de pris\u00e3o sem chance de redu\u00e7\u00e3o da pena por bom comportamento. Para que ningu\u00e9m deixasse de entender a mensagem, pain\u00e9is eletr\u00f4nicos distribu\u00eddos pela cidade exibiriam os infratores sendo conduzidos pela policia.<\/p>\n\n\n\n<p>A limita\u00e7\u00e3o do consumo per capita de \u00e1gua a 284 litros por dia &#8211; ou menos, caso o departamento de \u00e1guas decidisse reduzir a quantidade -, quando apenas duas d\u00e9cadas antes um morador de Phoenix consumia mais de 757 litros diariamente, significava que ter\u00edamos que mudar bastante o modo como viv\u00edamos. As fam\u00edlias precisaria pensar no planejamento do uso da \u00e1gua do mesmo jeito que planejavam seu or\u00e7amento dom\u00e9stico. S\u00f3 que com uma grande diferen\u00e7a: em caso de necessidade, uma fam\u00edlia poderia pegar dinheiro emprestado ou fazer compras com um cart\u00e3o de cr\u00e9dito; mas ningu\u00e9m em Phoenix emprestaria ou venderia sua \u00e1gua, nem mesmo por dinheiro vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Equipamos ent\u00e3o nossas casas com descargas econ\u00f4micas nos vasos sanit\u00e1rios, torneiras que s\u00f3 liberavam \u00e1gua durante alguns segundos e banheiras, pois ningu\u00e9m mais tomava banho de chuveiro. De qualquer forma, ter um chuveiro em casa havia se tornado ilegal. Tom\u00e1vamos banho de banheira uma vez por semana, como faziam nossos antepassados. Tamb\u00e9m us\u00e1vamos \u00e1gua cinza (\u00e1gua de reuso) para dar descarga nas privadas. Alguns economizavam ainda mais usando penicos ou instalando latrinas externas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como as autoridades tamb\u00e9m haviam banido a irriga\u00e7\u00e3o de gramados, em pouco tempo n\u00e3o havia mais nenhum. Os in\u00fameros campos de golfe em torno de Phoenix foram fechados. Manter um gramado na propriedade era pedir uma visita da patrulha de \u00e1guas. \u00c0 medida que mais e mais pessoas abandonavam suas casas, os gramados simplesmente foram secando.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto essas medidas de economia n\u00e3o funcionaram. O consumo de agua de fato caiu, mas, mesmo na d\u00e9cada de 2030, as pessoas continuaram a se mudar para c, apesar dos alertas de que a \u00e1gua e a energia n\u00e3o seriam suficientes. H sempre uma lacuna entre a percep\u00e7\u00e3o das pessoas e a realidade. Quando o consumo m\u00e9dio \u00e9 cortado pela metade mas a popula\u00e7\u00e3o dobra, voltamos ao ponto de partida. Como n\u00e3o se pode for\u00e7ar as pessoas a se mudarem, o que resta \u00e9 racionar a \u00e1gua e ir reduzindo a quota.<\/p>\n\n\n\n<p>Estar ao relento na metade do dia era arriscar a vida. Embora eu j\u00e1 tivesse ido embora na \u00e9poca, sei que Phoenix na d\u00e9cada 2040 era t\u00e3o quente quanto fora o vale da Morte na d\u00e9cada de 2000 &#8211; talvez at\u00e9 mais. A \u00fanica coisa que se podia fazer era permanecer em locais fechados e, se fosse preciso sair, correr at\u00e9 o ref\u00fagio climatizado mais pr\u00f3ximo. Mas o ar-condicionado requer energia el\u00e9trica, e a falta de \u00e1gua reduziu a produ\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas. Logo, a cidade come\u00e7ou a racionar eletricidade tamb\u00e9m. Na metade do dia, as ruas e cal\u00e7adas de Phoenix ficavam praticamente vazias. Crian\u00e7as e animais dom\u00e9sticos j\u00e1 eram vistos fora de suas casa. Os idosos tinham os pr\u00f3prios problemas: para eles o ar-condicionado era uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Aqueles que n\u00e3o tinham acesso a ambientes refrigerados ou n\u00e3o tinham como sair da cidade deram a Phoenix o t\u00edtulo de detentora do maior \u00edndice de mortalidade de idosos dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os aspectos da vida no Arizona Central haviam mudado para pior. A \u00e9poca em que algu\u00e9m poderia se aferrar a ilus\u00e3o de que calor e secas eram parte de ciclo natural que poder\u00edamos suportar j\u00e1 terminara havia muito tempo. Mesmo ruins como estavam, as coisas ainda iriam piorar e permaneceriam ruins, sem nenhuma expectativa de melhoria. Para a americanos, sobretudo os do Sudoeste, ber\u00e7o do sonho americano, esse era um conceito novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Presenciei meus pais envelhecerem prematuramente ao perceberem que seus \u00faltimos anos n\u00e3o seriam a \u00e9poca agrad\u00e1vel pare a qual haviam feito planos e economizado. Qualquer um podia ver que a coisa mais inteligente a ser feita era sair do Arizona, mas, com milhares de casas novas vazias em \u00e1reas n\u00e3o totalmente urbanizadas e sem \u00e1gua, os pre\u00e7os das resid\u00eancias haviam despencado. Como meus pais n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de liquidar a hipoteca de nossa casa, n\u00e3o possu\u00edam o capital nem o cr\u00e9dito para comprar uma casa nova em algum lugar mais fresco e \u00famido. De qualquer forma, nas cidades que atendiam a essas caracter\u00edsticas, a procura elevara os pre\u00e7os das moradias a um patamar inalcan\u00e7\u00e1vel. Jovens casais dispostos a correr riscos muitas vezes simplesmente deixavam para tr\u00e1s seus lares e hipotecas, sem sequer se darem o trabalho de trancar as portas, pois sabiam que jamais voltariam. Para os idosos, por\u00e9m, ir embora n\u00e3o era op\u00e7\u00e3o. Para mim era. Assim, em 2032 despedi-me tristemente de meus pais e rumei para o Canad\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Extra\u00eddo do livro &#8220;2084: Uma fic\u00e7\u00e3o baseada em fatos reais sobre o aquecimento global e o futuro da Terra&#8220;, de James Lawrence Powell. 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