{"id":1214,"date":"2026-06-02T13:08:12","date_gmt":"2026-06-02T16:08:12","guid":{"rendered":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/?p=1214"},"modified":"2026-06-02T13:08:13","modified_gmt":"2026-06-02T16:08:13","slug":"fonetica-forense-e-usada-para-analisar-vozes-e-auxiliar-investigacoes-criminais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/?p=1214","title":{"rendered":"Fon\u00e9tica forense \u00e9 usada para analisar vozes e auxiliar investiga\u00e7\u00f5es criminais."},"content":{"rendered":"<p>Especialistas comparam locutores em grava\u00e7\u00f5es de \u00e1udio e enfrentam desafios como semelhan\u00e7a entre falas e qualidade dos registros sonoros<\/p>\n<p>M\u00f4nica Manir, da Revista Pesquisa FAPESP<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140.jpg\" sizes=\"(max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140-250x103.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140-700x289.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140-120x50.jpg 120w\" alt=\"\" \/><\/p>\n<div class=\"wp-caption\">\n<p class=\"media-credits\">Julia Jabur<\/p>\n<\/div>\n<p>Ramo da lingu\u00edstica dedicado ao estudo dos sons da fala humana, a fon\u00e9tica tem uma sub\u00e1rea que vem ganhando espa\u00e7o n\u00e3o apenas na academia como tamb\u00e9m entre peritos criminais: a fon\u00e9tica forense. Trata-se da aplica\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas de an\u00e1lise de fala para caracterizar quem est\u00e1 falando em grava\u00e7\u00f5es obtidas pela pol\u00edcia e, a partir disso, utilizar essas informa\u00e7\u00f5es como evid\u00eancia em investiga\u00e7\u00f5es. A possibilidade de empregar conhecimento cient\u00edfico em uma pr\u00e1tica concreta atrai n\u00e3o apenas especialistas do pr\u00f3prio campo da lingu\u00edstica, como tamb\u00e9m de outras \u00e1reas, como engenharia. \u201c\u00c9 importante para n\u00f3s, linguistas, ter esse olhar voltado \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o dos nossos estudos na solu\u00e7\u00e3o de demandas sociais\u201d, afirma Cl\u00e1udia Regina Brescancini, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).<\/p>\n<p>A \u201ccompara\u00e7\u00e3o de locutor\u201d \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o mais tradicional da fon\u00e9tica forense. O m\u00e9todo consiste em confrontar uma amostra de autoria desconhecida \u2013 chamada de questionada, como um \u00e1udio de escuta telef\u00f4nica \u2013 com a voz de um ou mais suspeitos por um crime, denominada amostra de refer\u00eancia ou padr\u00e3o. Com base em estudos de anatomia do trato vocal, da an\u00e1lise ac\u00fastica e de informa\u00e7\u00f5es sobre o contexto em que vivem os indiv\u00edduos, \u00e9 poss\u00edvel avaliar a probabilidade de que as duas amostras perten\u00e7am, ou n\u00e3o, \u00e0 mesma pessoa.<\/p>\n<p>Como sociolinguista, Brescancini se dedica ao estudo das varia\u00e7\u00f5es sonoras, ou seja, varia\u00e7\u00f5es de pron\u00fancia que n\u00e3o afetam o significado das palavras ou frases e que s\u00e3o motivadas por fatores tanto lingu\u00edsticos quanto sociais. Uma dessas quest\u00f5es \u00e9 a geogr\u00e1fica, relacionada \u00e0s diferentes coloniza\u00e7\u00f5es de uma regi\u00e3o. Nesse cen\u00e1rio, o portugu\u00eas falado no Brasil representa um desafio para a fon\u00e9tica forense. \u201cNosso pa\u00eds \u00e9 um ba\u00fa de sotaques\u201d, constata a pesquisadora. Ela destaca o \u201cs\u201d chiado, caracter\u00edstico da influ\u00eancia portuguesa e a\u00e7oriana em cidades como Rio de Janeiro, Recife e Florian\u00f3polis, e o chamado \u201cr\u201d caipira, t\u00edpico do interior paulista, do sul de Minas Gerais e de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Por\u00e9m as varia\u00e7\u00f5es sonoras n\u00e3o s\u00e3o determinadas apenas pelo local onde se vive. Pessoas com maior n\u00edvel de escolaridade, por exemplo, tendem a apresentar padr\u00f5es lingu\u00edsticos distintos daquelas com menor escolaridade. H\u00e1 ainda diferen\u00e7as associadas ao g\u00eanero. Em geral, a voz masculina apresenta mais nasalidade e crepit\u00e2ncia, enquanto a feminina tende \u00e0 soprosidade, \u00e0 suavidade. Al\u00e9m disso, isso o fato de que muitas pessoas circulam pelo pa\u00eds incorporando sotaques. \u201cA migra\u00e7\u00e3o traz um tempero a mais nessa varia\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Brescancini. No caso de suspeitos por crimes, o hist\u00f3rico de confinamento por longos per\u00edodos em penitenci\u00e1rias acrescenta outra complexidade: o contato de diferentes dialetos em raz\u00e3o do conv\u00edvio entre presos de origens diversas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da similaridade, os peritos precisam considerar a tipicidade: o grau de raridade de um determinado tra\u00e7o lingu\u00edstico. Mesmo quando h\u00e1 forte semelhan\u00e7a entre os \u00e1udios comparados, se as caracter\u00edsticas observadas no material questionado forem comuns na popula\u00e7\u00e3o \u00e0 qual se sup\u00f5e que o suspeito perten\u00e7a, o valor probat\u00f3rio da evid\u00eancia diminui. Brescancini \u00e9 coautora de um artigo sobre tipicidade publicado em 2024 no peri\u00f3dico <em>Cadernos de Estudos Lingu\u00edsticos<\/em>, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). \u201cNa compara\u00e7\u00e3o de locutor, \u00e9 preciso avaliar em que medida similaridade e tipicidade sustentam a hip\u00f3tese de que duas amostras provenham do mesmo aparelho fonador, ou seja, da mesma pessoa\u201d, diz. \u201cA resposta ser\u00e1 sempre em termos de probabilidade.\u201d<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, Brescancini e a perita criminal C\u00edntia Schivinscki Gon\u00e7alves, doutora em lingu\u00edstica pela PUC-RS, v\u00eam desenvolvendo um m\u00e9todo voltado a auxiliar peritos oficiais no tratamento das varia\u00e7\u00f5es sonoras. A primeira vers\u00e3o da proposta virou um dos cap\u00edtulos do livro<em> An\u00e1lise fon\u00e9tico-forense: Em tarefa de compara\u00e7\u00e3o de locutor<\/em> (Editora Millennium, 2020), coorganizado pelo linguista Pl\u00ednio Barbosa, do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, onde coordena o Grupo de Estudos de Fon\u00e9tica Forense (Geff).<\/p>\n<p>Fruto da parceria entre o Geff e a Escola Superior do Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo, a obra \u00e9 resultado de projeto realizado por Barbosa entre 2016 e 2018 na Unicamp com apoio da FAPESP. Primeiro, o livro apresenta os procedimentos para o ensino sistem\u00e1tico e a aplica\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise de compara\u00e7\u00e3o de locutor no contexto forense. Na sequ\u00eancia, pesquisadores detalham t\u00e9cnicas fon\u00e9tico-ac\u00fasticas ou sociolingu\u00edsticas relacionadas a esse tipo de compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"alignright generated vertical\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-584756\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-800.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-800.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-800-250x233.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-800-700x651.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-800-120x112.jpg 120w\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"1061\" \/><span class=\"media-credits-inline\">Julia Jabur<\/span><\/div>\n<p>Para Barbosa, o principal desafio da fon\u00e9tica forense enquanto ci\u00eancia \u00e9 a busca por par\u00e2metros de compara\u00e7\u00e3o mais robustos. Ele ressalta que houve avan\u00e7o na \u00e1rea com a populariza\u00e7\u00e3o de \u00e1udios obtidos por aplicativos de mensagem, como o WhatsApp. \u201cAntigamente, a maioria das amostras vinha da telefonia fixa ou do celular, cujas bandas alcan\u00e7am no m\u00e1ximo 3.400 Hertz (Hz) de frequ\u00eancia\u201d, conta. Esse limite dificultava a an\u00e1lise de segmentos que podem ser diferenciadores de indiv\u00edduos, como a pron\u00fancia do \u201cs\u201d, que ultrapassa essa faixa. A frequ\u00eancia do WhatsApp, de at\u00e9 8 mil Hz, ampliou o espectro da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O efeito da transmiss\u00e3o telef\u00f4nica na fala foi objeto de estudo da linguista Renata Passetti tanto no mestrado (2015) quanto no doutorado (2018) realizados na Unicamp, ambos com apoio da FAPESP. \u201cQuando nos comunicamos pelo telefone, adotamos inconscientemente algumas modifica\u00e7\u00f5es ac\u00fasticas e pros\u00f3dicas que caracterizam esse tipo de intera\u00e7\u00e3o\u201d, afirma a pesquisadora. Pros\u00f3dia \u00e9 o componente da linguagem oral relacionado \u00e0 sua musicalidade, que abrange aspectos como ritmo e acentua\u00e7\u00e3o, ajudando a transmitir emo\u00e7\u00f5es e inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Passetti tamb\u00e9m investigou bancos de dados de l\u00edngua portuguesa no Brasil, destacando seu potencial como apoio para a compara\u00e7\u00e3o de locutor na avalia\u00e7\u00e3o da tipicidade de tra\u00e7os lingu\u00edsticos. Esses acervos re\u00fanem tanto registros brutos de fala do portugu\u00eas brasileiro quanto atlas lingu\u00edsticos, nos quais os dados j\u00e1 foram sistematizados e analisados. O levantamento desse material \u00e9 realizado principalmente por linguistas, dialet\u00f3logos e geolinguistas vinculados a centros de pesquisa.<\/p>\n<p>A pesquisadora assina com os linguistas Pablo Arantes e Daniel Fonseca Vieira, ambos da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), um artigo publicado em 2025 no qual avaliam acervos que registram varia\u00e7\u00f5es em diferentes n\u00edveis da l\u00edngua: o lexical (diferen\u00e7as no vocabul\u00e1rio usado para expressar o mesmo conceito, sem altera\u00e7\u00e3o de sentido), o sint\u00e1tico (varia\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e ordem das palavras em frases e ora\u00e7\u00f5es) e o conversacional (a adapta\u00e7\u00e3o da l\u00edngua ao contexto, ao falante e ao grupo social). \u201cDos 45 acervos analisados, apenas 13 possuem \u00e1udios, material essencial para a fon\u00e9tica forense, e 46% dessa parcela est\u00e3o concentrados no Sudeste\u201d, informa Arantes, coordenador do Laborat\u00f3rio de Fon\u00e9tica da UFSCar. \u201cN\u00e3o identificamos acervos com amostras de \u00e1udio provenientes de falantes das regi\u00f5es Centro-Oeste e Norte.\u201d<\/p>\n<blockquote><p>A Pol\u00edcia Federal tem promovido cursos na \u00e1rea, com a participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores brasileiros<\/p><\/blockquote>\n<p>Nos Pa\u00edses Baixos, um dos centros de refer\u00eancia mundial em fon\u00e9tica forense, h\u00e1 um conhecimento ac\u00fastico avan\u00e7ado dos diferentes modos de falar, resultado sobretudo do trabalho do Instituto Forense dos Pa\u00edses Baixos (NFI, na sigla em ingl\u00eas), em Haia, vinculado ao Minist\u00e9rio da Seguran\u00e7a e Justi\u00e7a. A Su\u00e9cia tamb\u00e9m abriga um centro de excel\u00eancia: o Instituto Real de Tecnologia (KTH), em Estocolmo, que vem avan\u00e7ando no reconhecimento de falantes com o uso de intelig\u00eancia artificial (IA).<\/p>\n<p>\u00c9 no KTH que Julio Cesar Cavalcanti realiza atualmente est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado, com apoio da FAPESP, como desdobramento de sua pesquisa na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP). Com doutorado em lingu\u00edstica pela Unicamp, defendido em 2021, ele tem analisado a transpar\u00eancia dos modelos de IA aplicados \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de autoria de voz. \u201cH\u00e1 um problema \u00e9tico em permitir que uma m\u00e1quina ou um modelo de IA incrimine um ser humano sem que se compreendam exatamente os crit\u00e9rios utilizados para chegar a essa conclus\u00e3o\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Em artigo publicado em 2024 no peri\u00f3dico <em>Frontiers in Artificial Intelligence<\/em>, Cavalcanti, Barbosa, o linguista sueco Anders Eriksson, da Universidade de Estocolmo, e o perito da Pol\u00edcia Federal (PF) Ronaldo Rodrigues da Silva analisaram grava\u00e7\u00f5es de 20 pares de g\u00eameos id\u00eanticos do sexo masculino em di\u00e1logos e entrevistas espont\u00e2neas. Os resultados evidenciam o desafio significativo que g\u00eameos id\u00eanticos imp\u00f5em aos sistemas autom\u00e1ticos de reconhecimento de falantes, uma tecnologia de IA voltada \u00e0 compara\u00e7\u00e3o de vozes com base em caracter\u00edsticas ac\u00fasticas individuais. Segundo o estudo, vozes humanas carregam marcas individualizantes importantes, mas o caso dos g\u00eameos id\u00eanticos mostra que essa individualidade n\u00e3o deve ser tratada como absoluta. \u201cH\u00e1 diferentes graus de semelhan\u00e7a vocal, e algumas vozes podem ser especialmente dif\u00edceis de distinguir at\u00e9 mesmo pela IA\u201d, comenta Cavalcanti.<\/p>\n<div class=\"aligncenter generated\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-584764\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140-2.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140-2.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140-2-250x153.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140-2-700x427.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/rpf-Fonetica-forense-2026-06-1140-2-120x73.jpg 120w\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"696\" \/><span class=\"media-credits-inline\">Julia Jabur<\/span><\/div>\n<p>Por causa de desafios assim, desde 2007, a PF oferece cursos de capacita\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o de locutor, com participa\u00e7\u00e3o de universidades brasileiras, entre elas Unicamp, PUC-SP, PUC-RS, UFSCar e Universidade de Bras\u00edlia (UnB). At\u00e9 o momento, foram realizados cinco ciclos de forma\u00e7\u00e3o, com intervalos m\u00e9dios de dois anos entre eles, ministrados no Instituto Nacional de Criminal\u00edstica (INC), em Bras\u00edlia, com a participa\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Per\u00edcias em Audiovisual e Eletr\u00f4nicos do pr\u00f3prio instituto.<\/p>\n<p>Os cursos s\u00e3o voltados aos peritos da PF e tamb\u00e9m aos que atuam nos institutos de criminal\u00edstica dos governos estaduais e do Distrito Federal. O mais recente ocorreu entre 2021 e 2023. Nessas forma\u00e7\u00f5es, os profissionais aprendem a analisar registros de \u00e1udio por meio de softwares de an\u00e1lise ac\u00fastica, como o Praat (\u201cfalar\u201d, em holand\u00eas), e, em uma etapa posterior, recebem instru\u00e7\u00f5es de pesquisadores sobre lingu\u00edstica, fon\u00e9tica, sociolingu\u00edstica e etiquetagem, processo que consiste em converter o sinal sonoro em dados anotados, permitindo compara\u00e7\u00f5es mais sistem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os peritos analisam a qualidade vocal, tema central das pesquisas da linguista Sandra Madureira, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica Aplicada e Estudos da Linguagem da PUC-SP. \u201cA singularidade de cada voz n\u00e3o resulta apenas da vibra\u00e7\u00e3o das pregas vocais, mas tamb\u00e9m da maneira recorrente como posicionamos os \u00f3rg\u00e3os articulat\u00f3rios da fala, como os l\u00e1bios\u201d, explica Madureira, uma das l\u00edderes do Grupo de Pesquisa em Estudos sobre a Fala, da mesma institui\u00e7\u00e3o. \u201cA voz \u00e9 influenciada ainda por fatores fisiol\u00f3gicos, como o prognatismo [proje\u00e7\u00e3o da mand\u00edbula, por exemplo], e por h\u00e1bitos, como o tabagismo.\u201d<\/p>\n<p>Madureira, Barbosa, Passetti, Arantes e Brescancini lecionaram em cursos da PF, mas, por for\u00e7a da legisla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poderiam ingressar na carreira de perito criminal federal, caso desejassem. O Decreto n\u00ba 5.116, de 24 de junho de 2004, n\u00e3o inclui linguistas e fonoaudi\u00f3logos entre as forma\u00e7\u00f5es habilitadas para o cargo.<\/p>\n<p>Segundo o engenheiro el\u00e9trico Andr\u00e9 Luiz da Costa Morisson, chefe do Servi\u00e7o de Per\u00edcias em Audiovisual e Eletr\u00f4nicos da PF, seis peritos federais especializados em fon\u00e9tica forense, todos com forma\u00e7\u00e3o em engenharia, comp\u00f5em hoje a equipe do \u00f3rg\u00e3o. \u201cProduzimos cerca de 50 laudos por ano\u201d, contabiliza. O espectro de apura\u00e7\u00f5es abrange desde crimes eleitorais e tr\u00e1fico de drogas a casos de abuso sexual infantil e difama\u00e7\u00e3o. \u201cNossas conclus\u00f5es n\u00e3o se baseiam em resultados categ\u00f3ricos, mas em avalia\u00e7\u00f5es de natureza probabil\u00edstica\u201d, diz.<\/p>\n<p>Morisson explica que todo resultado de per\u00edcia apresenta uma escala de probabilidade de nove pontos, que vai do \u2013 4 (quando \u00e9 muit\u00edssimo mais prov\u00e1vel que a evid\u00eancia seja obtida caso as amostras padr\u00e3o e questionada perten\u00e7am a pessoas diferentes) ao + 4 (quando \u00e9 muit\u00edssimo mais prov\u00e1vel que a evid\u00eancia seja obtida caso as amostras perten\u00e7am \u00e0 mesma pessoa). O zero seria inconclusivo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, os pesquisadores ouvidos para esta reportagem ressaltam de forma un\u00e2nime que, apesar dos avan\u00e7os na precis\u00e3o da t\u00e9cnica, os resultados da fon\u00e9tica forense devem ser interpretados como parte de um quadro mais amplo de evid\u00eancias. \u201cA compara\u00e7\u00e3o de locutor \u00e9 um elemento adicional na investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o \u00fanico. \u00c9 fundamental considerar outros vest\u00edgios, que, em conjunto com a voz, ajudam a compor o contexto do crime\u201d, conclui Arantes.<\/p>\n<p class=\"bibliografia separador-bibliografia\">A reportagem acima foi publicada com o t\u00edtulo \u201c<strong>Na escuta contra o crime<\/strong>\u201d na edi\u00e7\u00e3o impressa n\u00ba 364 de junho de 2026.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Projetos<\/strong><br \/>\n<strong>1.<\/strong> An\u00e1lise fon\u00e9tico-ac\u00fastica multidimensional em g\u00eameos id\u00eanticos e sujeitos n\u00e3o geneticamente relacionados: Implica\u00e7\u00f5es para a compara\u00e7\u00e3o forense de locutor em diferentes dialetos e estilos de elocu\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/213799\/analise-fonetico-acustica-multidimensional-em-gemeos-identicos-e-sujeitos-nao-geneticamente-relacion\/?q=23\/11070-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00ba 23\/11070-1<\/a>); <strong>Modalidade<\/strong> Bolsa de P\u00f3s-doutorado; <strong>Pesquisadora respons\u00e1vel<\/strong> Sandra Madureira (PUC-SP); <strong>Bolsista<\/strong> Julio Cesar Cavalcanti de Oliveira.<br \/>\n<strong>2.<\/strong> Explorando o potencial do reconhecimento autom\u00e1tico de falantes usando intelig\u00eancia artificial e dados de g\u00eameos: Implica\u00e7\u00f5es para as ci\u00eancias forenses e da fala (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/223158\/explorando-o-potencial-do-reconhecimento-automatico-de-falantes-usando-inteligencia-artificial-e-dad\/?q=24\/06797-2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00ba 24\/06797-2<\/a>); <strong>Modalidade<\/strong> Est\u00e1gio de Pesquisa no Exterior \u2013 P\u00f3s-doutorado; <strong>Pesquisadora respons\u00e1vel<\/strong> Sandra Madureira (PUC-SP); <strong>Bolsista<\/strong> Julio Cesar Cavalcanti de Oliveira.<br \/>\n<strong>3.<\/strong> Estudo ac\u00fastico-perceptual do estilo de fala telef\u00f4nico com implica\u00e7\u00f5es para a verifica\u00e7\u00e3o de locutor em portugu\u00eas brasileiro (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/160587\/estudo-acustico-perceptual-do-estilo-de-fala-telefonico-com-implicacoes-para-a-verificacao-de-locuto\/?q=15\/12174-9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00ba 15\/12174-9<\/a>); <strong>Modalidade<\/strong> Bolsa de Doutorado; <strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong> Pl\u00ednio Almeida Barbosa (Unicamp); <strong>Bolsista<\/strong> Renata Regina Passetti.<br \/>\n<strong>4.<\/strong> An\u00e1lise fon\u00e9tico-ac\u00fastica e elabora\u00e7\u00e3o de protocolo para compara\u00e7\u00e3o de locutor em casos forenses (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/94230\/analise-fonetico-acustica-e-elaboracao-de-protocolo-para-comparacao-de-locutor-em-casos-forenses\/?q=16\/09530-0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00ba 16\/09530-0<\/a>); <strong>Modalidade<\/strong> Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Regular; <strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong> Pl\u00ednio Almeida Barbosa (Unicamp).<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Artigos cient\u00edficos<\/strong><br \/>\nCAVALCANTI, J. C. <em>et al<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/artificial-intelligence\/articles\/10.3389\/frai.2024.1287877\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Exploring the performance of automatic speaker recognition using twin speech and deep learning-based artificial neural networks<\/a>. <strong>Frontiers in Artificial Intelligence<\/strong>, 2024<br \/>\nPASSETTI, R. R. e CONSTANTINI, A. C. <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0892199717305696\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The effect of telephone transmission on voice quality perception<\/a>. <strong>Journal of Voice<\/strong>, 2019.<br \/>\nPASSETTI, R. <em>et al.<\/em> <a href=\"https:\/\/periodicos.sbu.unicamp.br\/ojs\/index.php\/cel\/article\/view\/8675468\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tipicidade e qualidade de voz: Considera\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas sobre o controle de crit\u00e9rios sociolingu\u00edsticos, fon\u00e9ticos e de voz<\/a>. <strong>Cadernos de Estudos Lingu\u00edsticos<\/strong>, 2024.<br \/>\nVIEIRA D. F. <a href=\"https:\/\/openurl.ebsco.com\/openurl?sid=ebsco:plink:scholar&amp;id=ebsco:gcd:191618886&amp;crl=c\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Possibilidades de uso de acervos de dados do portugu\u00eas brasileiro em Fon\u00e9tica Forense<\/a>. <strong>Dom\u00ednios de Linguagem<\/strong>, 2025.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Livro<\/strong><br \/>\nBARBOSA P. A. <em>et al.<\/em> (Org.) <strong>An\u00e1lise fon\u00e9tico-forense: em tarefa de compara\u00e7\u00e3o de locutor<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Millennium, 2020.<\/p>\n<p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/\">Pesquisa FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\"> licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND<\/a>. Leia o <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/fonetica-forense-e-usada-para-analisar-vozes-e-auxiliar-investigacoes-criminais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">original aqui<\/a>.<\/p>\n<p><script>var img = new Image(); img.src='https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/republicacao_frame?id=584755&referer=' + window.location.href;<\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialistas comparam locutores em grava\u00e7\u00f5es de \u00e1udio e enfrentam desafios como semelhan\u00e7a entre falas e qualidade dos registros sonoros M\u00f4nica Manir, da Revista Pesquisa FAPESP Julia Jabur Ramo da lingu\u00edstica&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/?p=1214\">Continuar a ler&#8230;<span class=\"screen-reader-text\">Fon\u00e9tica forense \u00e9 usada para analisar vozes e auxiliar investiga\u00e7\u00f5es criminais.<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44,45],"tags":[],"class_list":["post-1214","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fonetica","category-justica","excerpt"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1214","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1214"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1214\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1215,"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1214\/revisions\/1215"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1214"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1214"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/treinamentolivre.com\/aluno04\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1214"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}